Amigos especiais para pessoas especiais: Pata d’Açúcar

Há uns meses, comecei a ouvir falar de cães que podem ser treinados para a identificação de hipoglicemias em pessoas com diabetes. Na noite de Natal, uns familiares, o Bruno e a Paula, falaram-me do Luke (um menino com diabetes) e o Jedi (o seu cão), que já mencionei num post anterior aqui no blog.

Entretanto, ouvi falar na Associação Pata d’Açúcar – Medical Dogs for Diabetics. Esta associação destina-se a treinar cães para detetarem hipoglicemias em humanos. A hipoglicemia é uma complicação aguda da diabetes em que os níveis de glicemia sanguínea descem a valores inferiores a 70mg/dl, podendo colocar em risco a vida da pessoa.
Entretanto procurei mais informações acerca da Pata d’Açúcar e vi uma reportagem ao Vice-Presidente da Associação, o José Antunes. Nesse mesmo momento coloquei na minha lista de tarefas contactá-lo para saber mais sobre este Projeto.

Curiosamente, conheci o José num almoço de pessoas com diabetes. O José é também uma pessoa com diabetes mellitus tipo 1 e que tem o seu cão, o encantador Thor, treinado para detetar hipoglicemias!

Entrevista José Antunes

Vera Ruivo Dias (VRD): Olá José! Antes de mais quero agradecer a tua disponibilidade em colaborar nesta “entrevista” para nos dar a conhecer a Pata d’Açúcar, a única associação nesta área em Portugal.

José Antunes (JA): Olá querida Vera Dias, é com imenso prazer que recebo este Teu convite para facultar esta entrevista ao Teu blog fantástico que tanto tem ajudado o mundo dos pessoas com diabetes e não só, pois comer corretamente é algo que todos nós pessoas com diabetes ou não deveríamos fazer. 

VRD: Como surge a ideia da Associação Pata D’Açúcar e quais são as suas tarefas?

JA: A associação Pata D’Açúcar surge de uma ideia que um amigo que conheci em Itália que me falou das capacidades dos cães poderem detetar as hipoglicemias. Então decidi por mãos à obra e saber mais sobre isso, até porque adoro animais e sempre tive muitos a Meu lado toda a vida. Decidi partilhar esta ideia com um amigo de infância, o Dr. Nuno Infante, que imediatamente a achou fantástica. Casualmente o Dr. Nuno Infante tinha uma ninhada de labradores e de imediato Me disse “Vou-te dar um cachorro para iniciares o treino.”, e assim começou esta “aventura ” .

Sobre a Associação Pata D’Açúcar, é uma associação sem fins lucrativos que tem como objetivos impulsionar, promover, propor, proceder e auxiliar o treino de cães com vista à deteção antecipada de hipoglicemias em portadores da diabetes . Sendo que o propósito do projecto tem também a sua componente social, que consiste em treinar 2 cães por ano, serão entregues a pessoas com diabetes gratuitamente.

VRD: Há quanto tempo existe a Associação e onde está localizada?

JA: A Associação Pata D’Açúcar foi constituída oficialmente no final de dezembro de 2016, tendo cerca de 3 meses , embora que o projeto já tinha sido iniciado à cerca de 1 ano .

A Associação Pata D’Açúcar está localizada no concelho do Seixal. 

VRD: Como tem sido a reação das pessoas ao saberem que podem ter um cão treinado com estas características?

JA: A reação das pessoas tem sido fabulosa muito acima das nossas expectativasA possibilidade de ter um companheiro com estas capacidades ajuda em muito a estabilidade, psicológica, física e social do Diabético, contribuindo diretamente para o melhor controlo da doença.

VRD: Qualquer cão pode ser submetido a este treino? Tem que ser um cão jovem ou é possível realizar o treino em um cão adulto?

JA: Sim, qualquer cão pode ser submetido ao treino desde que tenha as capacidades mínimas físicas e olfativas, que nos possam dar garantias de um desempenho correto.

O cão deve iniciar o treino no máximo com a idade até, no máximo, aos 6 meses, pois o treino leva o seu tempo e para termos mais tempo de vida útil no desempenho das funções do animal. Dependendo da raça do cão o seu tempo de vida no activo poderá mudar e assim tiramos o máximo partido das suas capacidades.

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VRD: Durante o processo de treino de um cão, os únicos profissionais envolvidos são os treinadores, ou existem outros?

JA: Bom durante todo o processo de treino dos cães, existem várias pessoas que intervêm, não só os treinadores, mas também vários voluntários pessoas com diabetes para os cães se ambientarem as várias situações nós vários cenários de treino, os tratadores, Veterinários. Ainda estão envolvidas no processo de treino várias famílias de acolhimento voluntárias por onde os cães vão passando para se adaptarem aos vários espaços, pessoas, idades, integração social em todos os aspectos da vida de um Diabético.

Obviamente que todos estes processos são supervisionados e orientados pelos treinadores.

 

VRD: Qual é o comportamento de um cão quando deteta que a pessoa está em hipoglicemia?

JA: No que toca às alterações do comportamento do cão no momento da detecção da hipoglicemia, depende do treino que lhe for incutido, pois podem existir 2 tipos de marcação: a ativa e a passiva. A que mais aconselhamos e usamos é a ativa, onde o cão pode ser treinado para ladrar, para se acercar do Seu tutor e lambe-lo, chamando a atenção do tutor. A passiva pode simplesmente passar por um gesto de se sentar, deitar ou fazer determinado gesto com as patas que o tutor sabe automaticamente que significa que deve fazer a medição da glicemia de imediato e confirmar os valores. Nunca nos podemos esquecer que o cão não substitui, de forma alguma, os meios de medição da glicemia que o Diabético tem ao seu dispor. Simplesmente, o cão, sendo um animal de companhia, é mais uma ferramenta que o apoio nesse processo. 

VRD: O cão deteta a hipoglicemia quando ela já existe ou algum tempo antes?

JA: No nosso treino o cão  é preparado para detetar antecipadamente, antes da hipoglicemia surgir ou quando atinge valores abaixo dos 70mg/dl. Habitualmente isto acontece com cerca de 12/15 minutos de antecedência.

 

VRD: Ao mostrar a fotografia de destaque deste artigo a uma pessoa a que dava conhecimento do projeto (a Enfermeira Helena), ela disse-me “O Thor é o anjo-da-guarda do José.” Achei que esta era “a” caracterização do Thor. Concordas?

JA: Bom, Vera devo confessar que esta foto tem sido alvo de imensos comentários, todos eles surpreendentes. O Thor realmente pode ser considerado um anjo da guarda, comentário fantástico da Sra Enf. Helena, que retrata exatamente o que esta foto representa e transmite, pois além de tudo o que Ele transmite a cada dia, as emoções que provoca, as alegrias com as traquinices dele (não fosse Ele um Labrador), o Thor é  autenticamente um parceiro , companheiro , até por vezes confidente .

VRD: O cão contribui para um bom estilo de vida de uma pessoa com diabetes, podes explicar como é que isto acontece?

JA: Verdade Vera, o facto de um diabético ter ao Seu lado um patudo com estas capacidades, permite-lhe também ter um estilo de vida muito melhor, na componente física, pois o Tutor exige um passeio diário, e ao mesmo tempo pratico exercício físico. Como sabemos, a atividade física é um dos fatores fundamentais para o controlo da diabetes. O cão contribui também para uma maior e melhor integração do diabético na sociedade que o rodeia, diminuindo o possível sentimento de exclusão ou discriminação, porque infelizmente, ainda existem muitos preconceitos com a diabetes na nossa sociedade. Eu já fui vítima disso devido à ignorância, falta de conhecimento e respeito por parte de terceiros. A auto-estima e segurança do diabético aumentam com a cumplicidade que se atinge com o nosso parceiro patudo, que, por vezes, transcende alguns relacionamentos entre humanos. 

VRD: Qual tem sido o maior desafio desde o início deste projeto?

JA: Em relação ao maior desafio que este projeto, tenho de dizer que tem sido mais do que um desafio, mas o principal é a adaptação das pessoas a presença do Thor, pois as pessoas em Portugal estão pouco e muito mal informadas sobre os Medical Dog’s, sobre o trabalho e a importância que Eles têm no dia-a-dia dos seus tutores. Afinal, todos os dias estes cães podem salvam as vidas dos seus tutores!

Estar em espaços públicos muitas vezes é difícil, sendo que temos que explicar constantemente as leis a várias pessoas, o papel e trabalho que estes animais desempenham e, inclusivé, desmistificar a integração do cão nos espaços e a sua interação com o tutor. Considero que é difícil explicar às pessoas, e em especial às crianças, o porque de não poderem tocar no cão. Esta atitude provoca uma desconcentração do cão na Sua missão de ajudar o tutor. Se os animais estiverem constantemente a interagir com outras pessoas podem perder o foco e perder o timming de avisar o tutor do surgimento da hipoglicemia. 

VRD: O que tem sido mais gratificante desde que iniciaste este projeto?

JA: Desde o início deste projeto, o que tem sido mais gratificante para mim, é poder contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos pessoas com diabetes, poder motivar estas a usufruírem de mais um apoio no controlo da doença. Frequentemente, verifico que o cão aumenta a união das famílias e das pessoas que rodeiam os doentes. É muito motivador, aprender a cada dia que passa com os patudos, descobrir que podemos ir mais além, a cumplicidade que se constrói a cada dia é indescritível.
Sem palavras também para o apoio e motivação que recebo a cada dia por parte das pessoas e não só as que têm diabetes, que reconhecem a mais valia do nosso trabalho e a importância da nossa dedicação diária, para podermos ajudar a controlar e a salvar vidas nesta luta contra a doença. Nunca nos podemos esquecer que a diabetes é a doença que provoca mais complicações no organismo e que é a principal causa de morte em todo o mundo!
Estamos muito felizes por termos conseguido realizar este sonho e criar esta Associação Pata D’Açúcar como pioneira em Portugal a desenvolver este trabalho específico, ainda que as  adversidades e burocracias que o nosso País exige sejam muitas. Isto foi também possível graças à importante ajuda das pessoas que nos rodeiam! O Meu muitíssimo obrigada a todos os que tornaram este sonho possível e aos que dia após dia nos motivam a superar e a sermos mais e melhor. 

O lema da Associação é: Ajudem a ajudar, por uma diabetes melhor. 

VRD: José qualquer pessoa pode ser sócio da Pata D’Açúcar. Quais são os benefícios de se ser sócio da Associação?

JA: Todas as pessoas que se associarem a nós terá todos os benefícios que os nossos parceiros disponibilizam em diversos serviços, como por exemplo: cabeleireiro, contabilista, arquitetura, Hotel e Serviço da Escola da Alcateia, Serviços de Consultadoria, Apoio Veterinário, assim como, dos futuros parceiros da associação.
Estes benefícios consistem em descontos exclusivos para os associados na nossa Associação Pata D’Açúcar.

VRD: José, apra terminar, descreve em 3 palavras o que significa para ti o Thor na tua vida, como pessoa com diabetes?

JA: MOTIVADO, DEDICADO e Perspicaz! Para além de protetor, e muito feliz!

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VRD: José, deixa-me agradecer a tua simpatia e disponibilidade para nos poder esclarecer acerca da Associação Pata D’Açúcar.

Desejo as maiores felicidades e sucesso à associação, pois permitirá melhorar significativamente a vida das pessoas com diabetes, que poderem usufruir da companhia de um cão treinado pela Pata D’Açúcar.

Bem haja, José!
Poderá contribuir para a Associação Pata d’Açúcar com um donativo através do
NIB 0010 0000 5458 0010 0016 5 Qualquer donativo contribuirá para o treino de um cão que melhorará a vida de uma pessoa com diabetes.

Pode seguir a associação através do facebook: https://pt-pt.facebook.com/patadacucar/

Para contactar a associação utilize o e-mail patadacucar.geral@gmail.com.

Os patrocinadores da Associação Pata D’Açúcar estão indicados na imagem seguinte.

patrocinio

A miss “Eu sou diabética”, Vera Ruivo Dias

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